Postagens

Enganos

Imagem
Achei que nunca aconteceria de novo, que paixão fosse coisa juvenil, e agora era tempo de amor calmo, maduro (mas aconteceu). Achei que a idade me impediria, que tempos diferentes não se encaixam assim (mas o amor acha jeito). Achei que não teriam músicas, que não teria desejo, que não teriam lembranças, que, salvo outros perigos, o coração estaria a salvo (mas até o silêncio transborda). Achei que você me machucar facilitaria esquecer, pensar que você é alguém cruel, e tudo de oposto que meu coração enxergou (mas você me avisou). Achamos que não ter limitaria a dor, os momentos a superar, a intensidade de tudo (mas —   me — ignorar é fácil ...). Achei que nunca aconteceria de novo, que teria controle dos enganos, que um dia restariam apenas certezas — vãs (mas o coração não aprende nunca).

Luto

Imagem
é só o luto da falta  do que poderia ter sido. vai passar, o que sequer aconteceu não deve durar (doer) tanto eu só luto para essas lágrimas caírem todas de uma vez.

Esses prazeres violentos tem fins violentos

Imagem
Há dores que nos causam rachaduras fissuras fundas dentro do peito. Apagamos a luz pra ninguém ver Erguemos barreiras pra ninguém entrar Mas a luz acha jeito E, distraída no caos,  te vi como um portal,  me deixei iluminar. Que dores carrega Pra chegar até aqui e não se aninhar no meu peito? Não quero te prender  Visto que és sereia, leoa, medusa brilhante, filha das águas turvas, que escorres entre os dedos, mas nunca sem deixar marcas.  Esquece que o que mais me atrai é contemplar seu modo de ver o mundo, o espelho que eu encontro em ti? Também não suporto nada que me prenda, que me impeça de viver a vida. Passei o resto da manhã de hoje chorando.  Pensar que te causei algum mal-estar  está me corroendo de dor.  Pensar que você tentou — se abrir ou me responder — e eu devolvi com mágoa  porque falhei em te compreender.  Não conhecemos as dores uma da outra,  mas sinto a tua profundamente.

Comunicação

 "Deve haver uma palavra que uma vez dita muda o mundo". Para o bem e para o mal. 

Sobre ser concha, não oferenda

Imagem
Começo com vários suspiros  esta milésima e diária despedida involuntária. "Se escutar tem um poder imenso",  eu te digo. E repito e repito... pra mim mesma. Sobre ser concha Não mais oferenda.  Algumas presenças abrem portais que insistem em existir como se o tempo, distraído... mas hesitam e controlam a intensidade. Você acende, ela apaga.  Você escreve, ela silencia. Você oferece, ela resiste — a guardiã da porta. Ofereço o que pulsa, sem amarras,  mas com reciprocidade. Liberdade não é ausência, é dança. É estar com — sem prender. De um lado, a que desperta e se esconde. Acende e se retrai. Sereia do fogo e do excesso de bom senso. Do outro, a que ama como ninguém, mas, presa em nós antigos,  não entra na vida que sonho partilhar. Fala de estar, como quem liberta, mas me guarda entre receios. Fala de amor, como quem divide, mas me vê como metade. Fala em parceria, mas sustenta só um lado. O que é que vale a pena? Nessa vontade de seguir mas sem par. Lib...

Setembro 12::2004

Que vão pra porra os homens! E as meninas também. Que vá pra porra a vontade, que vá pra porra a falta de loucura do mundo e o meu descostume repentino de coragem. Que vá pra porra, definitivamente, o pudor, a falta do que falar, e a obediência às regras que se é contra. Que vá porra você mesmo que não acredita mas faz, e a mim mesma. Vá pra porra você que eu amo, e não me permito porque você não me permite... e a toda essa complicação que eu mesma crio, pela doença da autodefesa. Vá pra porra a liberdade que eu não cumpro, o beijo que não roubei, a tentação que não cedi, a briga que não concretizei. Vá pra porra todos os dias da estúpida existência do medo, o receio, ou qualquer coisa e que quem quer que sinta isso. Vá pra porra você que não se entregou a mim, que não me recebeu, ou que não me enxergou, e também quem me idealizou demais. Vão todos vocês pra porra que não aproveitam essas oportunidades de encanto por causa do que pode vir depois, do não-saber. Vá pra porra o ceder eter...

Carta à leoa

Imagem
Eu não vim domar o que em ti é fogo — só desejei dançar no calor dos teus passos felinos. Não pedi tua rendição, nem esperei abrigo. Quis só o espaço entre o toque, ser musa das suas palavras e o cuidadoso perigo. Sei da tua fome e da tua cautela, sei que és flor que arranha e protege, brilha e queima. Mas também sei:  não se escolhe a quem nos aquece quando o peito acende. Te quis assim — em seu habitat natural, feroz na tua ternura, destreza em cada verso. Sussurro: não fuja quando, mesmo dizendo que não, some — mas eu insisto (?) Eu sei que o amor queima, já amei muito nessa vida. Mas também sei do que cura. E às vezes, leoa, a ferida é só a pele se abrindo para um outro tipo de ternura. Não peço que fique — mentira. Mas que, se fores, vá sabendo: te vi.  Sem medo.

Quando a ausência não se despede

Imagem
ela não disse adeus nem ficou. apenas se recolheu no canto das mensagens, no canto da sala. respondeu com reticências, o que antes era vírgula e ponto de continuação — as nossas trocas. e eu, com o peito ainda entreaberto, preciso segurar o impulso de me aproximar de novo (porque insistir demais às vezes é se perder). carrego novamente a angústia, a culpa exagerada e obsessiva, mas serena da intensidade legítima de quem ofereceu verdade a quem escolheu a cautela à vida. há silêncio, sim, mas ele não apaga o que foi poesia, o que foi presença, o que fui eu — e tudo o que ela deixou em mim. agora me recolho também, não para negar o que sinto, mas para acolher a paz que preciso (apesar do saudoso gostinho do coração acelerado). e quem sabe, um dia, entre um café e um olhar, um intervalo entre as pontinhas dos dedos , ela perceba que o que partiu foi o que mais a via.

Sereia de fogo

Imagem
observo as linhas suaves debaixo do seu vestido sereia de fogo, hoje sonhei contigo, beijava seu corpo inteiro  seus seios, seu umbigo,  sua flor. acordei com seu gosto  de me tirar do eixo nesse desejo cúmplice  de trocarmos palavras e  doses homeopáticas de " cin" , me trazer de volta a poesia. mas o desejo não aceita censura seu olhar: farol que não orienta, desorienta a bússola tatuada no meu peito. porque seu dom é não caber em moldura, em norma, um mapa ao tesouro. seu dom é (en)cantar pro mundo. sereia  que queima  feito Shiva dançando  e eu, ardendo. 

hipóteses

mas tudo não é uma resposta psicológica as demandas da falta que nos torna quem somos e como vivemos?

Tudo o que seja maior que o medo

Imagem
Às vezes o coração dispara não por amor, não por desejo, mas pelo anseio antigo de não ter onde cair de ninguém atender seu choro de se berçar sozinha. Há um eco no corpo, um lugar que se lembra de quando era perigoso precisar  de ajuda. O corpo grita: “Segure. Não solte. Não precise. Não esqueça." Hoje eu tento entender — isso foi verdade, mas não é mais! há chão dos caminhos que trilhei há abraço sempre a me encontrar, há casa quando eu preciso. E se o coração acelerar, que seja também pela alegria do encontro, pelo abrigo de uma escuta, pela certeza de que posso,  enfim, descansar  em meu próprio colo; respirar  dentro do meu próprio abraço; me (re)acolher inteira — e confiar no fluxo da vida: "Tudo que seja maior que o medo". 

Tirar os pés do chão

Imagem
" Aprendi com o mar, que onda grande se atravessa mergulhando ". Não dá pra fugir, nem passar por cima — não se afasta a água com as mãos. É preciso ir com ela, no fundo, sem se perder, segurar a respiração (e o medo), e deixar que o corpo saiba voltar à tona. Como andar de bicicleta: é preciso tirar os pés do chão. O equilíbrio vem do movimento, não do pensamento. E eu, que sempre estudei muito antes de agir, me vejo diante da curva: ou confio, ou fico parada — segura, imóvel e sem vida. Sim, tirar os pés do chão. Mesmo com roteiros incertos, sem garantia nenhuma, mesmo com o risco da queda. E ainda posso me culpar por cada arranhão causado, cada curva imperfeita, ou só por ter ousado o risco. Mas a vida nunca pediu garantias — ela pede gesto, presença, escuta do vento, águas salgadas (mar, suor e lágrimas), e o compromisso de tentar com toda essa delicadeza que me habita. " A água do rio nunca é a mesma " Nem eu serei. Mas hoje, me autorizo: a remar, a pedalar, a ...

Lau(del)ina

Imagem
Você me diz que não gosta do seu nome, Mas eu gosto tanto... Ina, minha menina, feito um sussurro de carinho, feito quem chama com doçura o que o mundo não aprendeu a acolher. Quando dizemos que o que aconteceu com a gente foi um encontro É porque não só não esperávamos,  mas porque nos fechamos No silêncio das dores, no intervalo entre o fim e o começo  de algo que parece ter vindo para curar. Minha companheira, que briga com o mundo, carrega-o nos ombros, como quem já segurou demais, mas comigo… se rende à calma, à pausa, ao afeto,  ao alento. Meu encontro, no momento exato em que precisei lembrar que ainda existia verdade no mundo. Minh’amor, você dorme no meu colo como se eu pudesse te proteger de tudo porque afinal é isso o amor: esse lugar onde enfim, podemos descansar.

Alento

do latim anhelĭtum : respiração, hálito, fôlego; força necessária para respirar, como o ar que oxigena os pulmões e revitaliza; alimenta, nutre, sustenta; inspira; dá ânimo, coragem e energia para conseguir levantar, caminhar, reerguer-se e construir novos modos de existir. (2021)

Palavras

Imagem
foto: arquivo pessoal - 2007   Amo palavras. Desde pequena. Lia até dicionário.  Ficava esperando o transporte da escola, só tinha dicionário na mochila, lia o dicionário.  Com o tempo fiquei buscando palavras com significados bonitos, poemas em dicionário.  Eu me riscava palavras no corpo com caneta. Palavras e frases que achava bonitas.  Achei lindo que fui trabalhar com uma tatuadora que só tatuava palavras nas pessoas.  Fui papel de várias.  Acaso , inclusive.

Liberdade

Imagem
Você diz que sou minha  antes de ser sua E sempre pergunta  se sinto falta de algo. Eu digo que tenho tudo,  o que preciso neste momento e reafirmamos nosso compromisso  com a sinceridade e a verdade.  Porque liberdade é bancar o próprio desejo,  é ter a ética de não mentir para si mesma  nem para o outro  e é sob essa ética que escolh(emos) viver.  Amor, minha metade misturada,  sempre há um querer que é só seu,  que é só meu,  e é isso que nos sustenta na vida; Quando re- tomo o meu corpo, ressignifico minhas marcas, e inscrevo, em mim, como quero viver. Amor, minha metade de Platão,  meu encontro, ninguém pode ter mais direitos  sobre o seu corpo do que você mesma. Não se empresta uma vida, não se encaixa — apenas se com- partilha, para con -viver. Amor, não tema me perder:  depois que nos achamos,  viramos lar uma da outra.

atrasado

agora, que você finalmente chegou, amor e me entregou o que eu quis tudo o que eu já fiz: passou, murchou, mudou. você atrasou, amor o amor.

vivre sa vie

eu não confio no mundo. não sei mais pular num abismo de olhos fechados sentindo o vento. me jogo, mas um olho está sempre apenas fingindo não ver. mesmo na felicidade mais linda, meus vinte e cinco anos de mágoas impregnaram tudo. é como aquela história do lençol branco e as mãos sujas de carvão. ou das marcas de prego na parede. mas teimo, viciantemente, sobrevivemente, acreditar, viver. e ver essa vida pelos olhos de outra pessoa é de uma... (sabe?) absurda. e se enganar e se iludir e se perder é tão comum. mas ver que existe um outro modo, que o outro lado é feito tão possivelmente leve, e real...: infla todo este vazio. e é impossível não se apaixonar de novo.

el secreto de sus ojos

"As pessoas podem mudar de tudo: de cara, de casa, de família... de namorada, religião, de Deus... Mas tem uma coisa que não pode se mudar, Benjamín... Não se pode trocar de paixão."

shiva

volta e meia quero destruir tudo, afastar tudo, acabar com o errado na minha vida. mas o errado e o certo ficam mudando de lugar.