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Sobre ser concha, não oferenda

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Começo com vários suspiros  esta milésima e diária despedida involuntária. "Se escutar tem um poder imenso",  eu te digo. E repito e repito... pra mim mesma. Sobre ser concha Não mais oferenda.  Algumas presenças abrem portais que insistem em existir como se o tempo, distraído... mas hesitam e controlam a intensidade. Você acende, ela apaga.  Você escreve, ela silencia. Você oferece, ela resiste — a guardiã da porta. Ofereço o que pulsa, sem amarras,  mas com reciprocidade. Liberdade não é ausência, é dança. É estar com — sem prender. De um lado, a que desperta e se esconde. Acende e se retrai. Sereia do fogo e do excesso de bom senso. Do outro, a que ama como ninguém, mas, presa em nós antigos,  não entra na vida que sonho partilhar. Fala de estar, como quem liberta, mas me guarda entre receios. Fala de amor, como quem divide, mas me vê como metade. Fala em parceria, mas sustenta só um lado. O que é que vale a pena? Nessa vontade de seguir mas sem par. Lib...

Carta à leoa

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Eu não vim domar o que em ti é fogo — só desejei dançar no calor dos teus passos felinos. Não pedi tua rendição, nem esperei abrigo. Quis só o espaço entre o toque, ser musa das suas palavras e o cuidadoso perigo. Sei da tua fome e da tua cautela, sei que és flor que arranha e protege, brilha e queima. Mas também sei:  não se escolhe a quem nos aquece quando o peito acende. Te quis assim — em seu habitat natural, feroz na tua ternura, destreza em cada verso. Sussurro: não fuja quando, mesmo dizendo que não, some — mas eu insisto (?) Eu sei que o amor queima, já amei muito nessa vida. Mas também sei do que cura. E às vezes, leoa, a ferida é só a pele se abrindo para um outro tipo de ternura. Não peço que fique — mentira. Mas que, se fores, vá sabendo: te vi.  Sem medo.

Tirar os pés do chão

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" Aprendi com o mar, que onda grande se atravessa mergulhando ". Não dá pra fugir, nem passar por cima — não se afasta a água com as mãos. É preciso ir com ela, no fundo, sem se perder, segurar a respiração (e o medo), e deixar que o corpo saiba voltar à tona. Como andar de bicicleta: é preciso tirar os pés do chão. O equilíbrio vem do movimento, não do pensamento. E eu, que sempre estudei muito antes de agir, me vejo diante da curva: ou confio, ou fico parada — segura, imóvel e sem vida. Sim, tirar os pés do chão. Mesmo com roteiros incertos, sem garantia nenhuma, mesmo com o risco da queda. E ainda posso me culpar por cada arranhão causado, cada curva imperfeita, ou só por ter ousado o risco. Mas a vida nunca pediu garantias — ela pede gesto, presença, escuta do vento, águas salgadas (mar, suor e lágrimas), e o compromisso de tentar com toda essa delicadeza que me habita. " A água do rio nunca é a mesma " Nem eu serei. Mas hoje, me autorizo: a remar, a pedalar, a ...

Liberdade

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Você diz que sou minha  antes de ser sua E sempre pergunta  se sinto falta de algo. Eu digo que tenho tudo,  o que preciso neste momento e reafirmamos nosso compromisso  com a sinceridade e a verdade.  Porque liberdade é bancar o próprio desejo,  é ter a ética de não mentir para si mesma  nem para o outro  e é sob essa ética que escolh(emos) viver.  Amor, minha metade misturada,  sempre há um querer que é só seu,  que é só meu,  e é isso que nos sustenta na vida; Quando re- tomo o meu corpo, ressignifico minhas marcas, e inscrevo, em mim, como quero viver. Amor, minha metade de Platão,  meu encontro, ninguém pode ter mais direitos  sobre o seu corpo do que você mesma. Não se empresta uma vida, não se encaixa — apenas se com- partilha, para con -viver. Amor, não tema me perder:  depois que nos achamos,  viramos lar uma da outra.