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Sobre ser concha, não oferenda

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Começo com vários suspiros  esta milésima e diária despedida involuntária. "Se escutar tem um poder imenso",  eu te digo. E repito e repito... pra mim mesma. Sobre ser concha Não mais oferenda.  Algumas presenças abrem portais que insistem em existir como se o tempo, distraído... mas hesitam e controlam a intensidade. Você acende, ela apaga.  Você escreve, ela silencia. Você oferece, ela resiste — a guardiã da porta. Ofereço o que pulsa, sem amarras,  mas com reciprocidade. Liberdade não é ausência, é dança. É estar com — sem prender. De um lado, a que desperta e se esconde. Acende e se retrai. Sereia do fogo e do excesso de bom senso. Do outro, a que ama como ninguém, mas, presa em nós antigos,  não entra na vida que sonho partilhar. Fala de estar, como quem liberta, mas me guarda entre receios. Fala de amor, como quem divide, mas me vê como metade. Fala em parceria, mas sustenta só um lado. O que é que vale a pena? Nessa vontade de seguir mas sem par. Lib...

Quando a ausência não se despede

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ela não disse adeus nem ficou. apenas se recolheu no canto das mensagens, no canto da sala. respondeu com reticências, o que antes era vírgula e ponto de continuação — as nossas trocas. e eu, com o peito ainda entreaberto, preciso segurar o impulso de me aproximar de novo (porque insistir demais às vezes é se perder). carrego novamente a angústia, a culpa exagerada e obsessiva, mas serena da intensidade legítima de quem ofereceu verdade a quem escolheu a cautela à vida. há silêncio, sim, mas ele não apaga o que foi poesia, o que foi presença, o que fui eu — e tudo o que ela deixou em mim. agora me recolho também, não para negar o que sinto, mas para acolher a paz que preciso (apesar do saudoso gostinho do coração acelerado). e quem sabe, um dia, entre um café e um olhar, um intervalo entre as pontinhas dos dedos , ela perceba que o que partiu foi o que mais a via.

Tudo o que seja maior que o medo

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Às vezes o coração dispara não por amor, não por desejo, mas pelo anseio antigo de não ter onde cair de ninguém atender seu choro de se berçar sozinha. Há um eco no corpo, um lugar que se lembra de quando era perigoso precisar  de ajuda. O corpo grita: “Segure. Não solte. Não precise. Não esqueça." Hoje eu tento entender — isso foi verdade, mas não é mais! há chão dos caminhos que trilhei há abraço sempre a me encontrar, há casa quando eu preciso. E se o coração acelerar, que seja também pela alegria do encontro, pelo abrigo de uma escuta, pela certeza de que posso,  enfim, descansar  em meu próprio colo; respirar  dentro do meu próprio abraço; me (re)acolher inteira — e confiar no fluxo da vida: "Tudo que seja maior que o medo". 

Tirar os pés do chão

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" Aprendi com o mar, que onda grande se atravessa mergulhando ". Não dá pra fugir, nem passar por cima — não se afasta a água com as mãos. É preciso ir com ela, no fundo, sem se perder, segurar a respiração (e o medo), e deixar que o corpo saiba voltar à tona. Como andar de bicicleta: é preciso tirar os pés do chão. O equilíbrio vem do movimento, não do pensamento. E eu, que sempre estudei muito antes de agir, me vejo diante da curva: ou confio, ou fico parada — segura, imóvel e sem vida. Sim, tirar os pés do chão. Mesmo com roteiros incertos, sem garantia nenhuma, mesmo com o risco da queda. E ainda posso me culpar por cada arranhão causado, cada curva imperfeita, ou só por ter ousado o risco. Mas a vida nunca pediu garantias — ela pede gesto, presença, escuta do vento, águas salgadas (mar, suor e lágrimas), e o compromisso de tentar com toda essa delicadeza que me habita. " A água do rio nunca é a mesma " Nem eu serei. Mas hoje, me autorizo: a remar, a pedalar, a ...

Palavras

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foto: arquivo pessoal - 2007   Amo palavras. Desde pequena. Lia até dicionário.  Ficava esperando o transporte da escola, só tinha dicionário na mochila, lia o dicionário.  Com o tempo fiquei buscando palavras com significados bonitos, poemas em dicionário.  Eu me riscava palavras no corpo com caneta. Palavras e frases que achava bonitas.  Achei lindo que fui trabalhar com uma tatuadora que só tatuava palavras nas pessoas.  Fui papel de várias.  Acaso , inclusive.

Liberdade

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Você diz que sou minha  antes de ser sua E sempre pergunta  se sinto falta de algo. Eu digo que tenho tudo,  o que preciso neste momento e reafirmamos nosso compromisso  com a sinceridade e a verdade.  Porque liberdade é bancar o próprio desejo,  é ter a ética de não mentir para si mesma  nem para o outro  e é sob essa ética que escolh(emos) viver.  Amor, minha metade misturada,  sempre há um querer que é só seu,  que é só meu,  e é isso que nos sustenta na vida; Quando re- tomo o meu corpo, ressignifico minhas marcas, e inscrevo, em mim, como quero viver. Amor, minha metade de Platão,  meu encontro, ninguém pode ter mais direitos  sobre o seu corpo do que você mesma. Não se empresta uma vida, não se encaixa — apenas se com- partilha, para con -viver. Amor, não tema me perder:  depois que nos achamos,  viramos lar uma da outra.

vivre sa vie

eu não confio no mundo. não sei mais pular num abismo de olhos fechados sentindo o vento. me jogo, mas um olho está sempre apenas fingindo não ver. mesmo na felicidade mais linda, meus vinte e cinco anos de mágoas impregnaram tudo. é como aquela história do lençol branco e as mãos sujas de carvão. ou das marcas de prego na parede. mas teimo, viciantemente, sobrevivemente, acreditar, viver. e ver essa vida pelos olhos de outra pessoa é de uma... (sabe?) absurda. e se enganar e se iludir e se perder é tão comum. mas ver que existe um outro modo, que o outro lado é feito tão possivelmente leve, e real...: infla todo este vazio. e é impossível não se apaixonar de novo.

shiva

volta e meia quero destruir tudo, afastar tudo, acabar com o errado na minha vida. mas o errado e o certo ficam mudando de lugar.

fraude:

me vi num video hoje. como pode alguém tão estressada, metódica, explosível e tensa parecer tão delicada, leve, minúscula e frágil?

Depois do mundo vem o nada

Depois de cheio o copo, cada gota pode pôr muito a derramar E a gente só lembra do que é importante. Por que você não vai de uma vez?

saindo de casa

é que não sou tão forte assim e tenho medo de me sentir só e não-segura. é que não sou tão frágil assim e desejo meu espaço, minha liberdade, minha segurança.

levemente vazia

sei que gosto do seguro, do claro, que mesmo na dor sou agarrada à sinceridade; é minha forma de controle, é o que eu me permito como exigência para morar na mais possível paz.

"quero escrever movimento puro"

. ando meio à flor da pele ... que certas coisas minhas andam mais à mostra. há um tempo na verdade, talvez seja eu notando somente, agora. sempre fui nostálgica, ando mais, de lembrar de pessoas, de momentos, especialmente de apredizagens, exemplos que me são úteis agora e eu fico buscando reaprendê-los, tirar mais uma gotinha, uma tentativa de ativar mudanças por dentro. ando sentindo saudade dos livros que li, fico lembrando das frases, me repetindo, fazendo de mantra, tentando buscar em mim a seleção perfeita, a teoria. sempre fui urgente, querer que tudo se resolva, esclareça, movimente, tome um rumo, ou morra de vez. sempre quero demais. acabei pensando que, poxa, vivi tanta gente incrível, tanto mundo, que bom. e ao mesmo tempo tentando me fazer pensar menos, viver mais tudo isso. .