Quando a ausência não se despede

ela não disse adeus
nem ficou.
apenas se recolheu no canto das mensagens,
no canto da sala.

respondeu com reticências,
o que antes era vírgula
e ponto de continuação —
as nossas trocas.

e eu,
com o peito ainda entreaberto,
preciso segurar o impulso de me aproximar de novo
(porque insistir demais às vezes é se perder).

carrego novamente a angústia,
a culpa exagerada e obsessiva,
mas serena da intensidade legítima
de quem ofereceu verdade
a quem escolheu a cautela à vida.

há silêncio, sim,
mas ele não apaga o que foi poesia,
o que foi presença,
o que fui eu —
e tudo o que ela deixou em mim.

agora me recolho também,
não para negar o que sinto,
mas para acolher a paz que preciso
(apesar do saudoso gostinho
do coração acelerado).

e quem sabe, um dia,
entre um café e um olhar,
um intervalo entre as pontinhas dos dedos,
ela perceba que o que partiu
foi o que mais a via.

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