Às vezes o coração dispara não por amor, não por desejo, mas pelo anseio antigo de não ter onde cair de ninguém atender seu choro de se berçar sozinha. Há um eco no corpo, um lugar que se lembra de quando era perigoso precisar de ajuda. O corpo grita: “Segure. Não solte. Não precise. Não esqueça." Hoje eu tento entender — isso foi verdade, mas não é mais! há chão dos caminhos que trilhei há abraço sempre a me encontrar, há casa quando eu preciso. E se o coração acelerar, que seja também pela alegria do encontro, pelo abrigo de uma escuta, pela certeza de que posso, enfim, descansar em meu próprio colo; respirar dentro do meu próprio abraço; me (re)acolher inteira — e confiar no fluxo da vida: "Tudo que seja maior que o medo".
Faz tempo que eu pensava que não existia mais gente como você. E o engraçado é que te reconheci antes mesmo de te ver. Era apenas uma voz macia, de cuidado puro, riso leve e a foto de uma água-viva. Eu vivo nas águas profundas Onde nem todo mundo consegue chegar. Você é como um sol que mergulha e ilumina tudo, "Brilha e queima" — você avisa. São tantas defesas que a gente se inventa, menina, a cada dia que eu te vejo Eu relembro de mim mesma, vivendo uma vida que nem essa que você fala e que eu achava que já não existia mais. Eu te falo sobre vulnerabilidade sobre as palavras, as artes e a filosofia; sobre uma necessidade de se expressar, de entender e de colocar poesia em tudo. E nós duas temos liberdade tatuada na pele! Você me mostra um pouquinho de você e eu fico querendo te dar um mundo — feito à mão, com calma e intensidade pintado à óleo, de lavanda. Pra ver se você me mostra mais... desse aí que você enxerga, com esse olhar...
Há dores que nos causam rachaduras fissuras fundas dentro do peito. Apagamos a luz pra ninguém ver Erguemos barreiras pra ninguém entrar Mas a luz acha jeito E, distraída no caos, te vi como um portal, me deixei iluminar. Que dores carrega Pra chegar até aqui e não se aninhar no meu peito? Não quero te prender Visto que és sereia, leoa, medusa brilhante, filha das águas turvas, que escorres entre os dedos, mas nunca sem deixar marcas. Esquece que o que mais me atrai é contemplar seu modo de ver o mundo, o espelho que eu encontro em ti? Também não suporto nada que me prenda, que me impeça de viver a vida. Passei o resto da manhã de hoje chorando. Pensar que te causei algum mal-estar está me corroendo de dor. Pensar que você tentou — se abrir ou me responder — e eu devolvi com mágoa porque falhei em te compreender. Não conhecemos as dores uma da outra, mas sinto a tua profundamente.
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